Licenciatura de Dança

quinta-feira, 8 de março de 2018

Improvisação na dança - Algo para se refletir



O campo de atuação para observação da autora para a criação desse texto (Euzinha :D) é um grupo de artes pertencente a uma igreja evangélica na cidade de Vitória da Conquista-ba do qual a própria autora participa. Os artistas são adolescentes e jovens, membros da própria instituição, que se reúnem uma vez por semana por duas horas de ensaio, quando não há ainda previsão de apresentação, e todos os dias da semana por uma hora, quando falta apenas uma semana para o dia da apresentação.
Dançamos coreografias advindas de músicas cristãs sem um gênero musical propriamente definido, pois entendemos a coreografia evangélica como uma história contada através de passos que a expressa, não importando, inicialmente, o estilo em que é dançada (se bale, hip hop, etc). No entanto, o público que visamos atingir são os membros da própria igreja que variam de faixa etária, dos mais novos aos mais velhos e que, apesar de estarem acostumados em ver pessoas dançando à frente, ainda podem se escandalizar com pequenas coisas, mesmo que a intenção não tenha sido ruim. Por esta causa, nos esforçamos ao máximo para nos adequarmos à realidade da igreja, formulando algumas regras nunca listadas, apenas entendidas pelos criadores de coreografias da instituição como as mais sensatas para se apresentar, como o modo de abaixar de costas para o público, o jeito de se dançar quando há união de duplas entre homens e mulheres, etc (listadas agora).
Apenas pelo relato até o dado momento, não vejo possibilidade de falar de processos criativos de coreografia sem pensar em música. De fato, ela é a nossa base para a criação, pois, mesmo quando se dança no silêncio, há uma música que “ouvimos” através da dança.
Não há regras para a forma estrutural da música a ser utilizada para a criação dessas coreografias. No geral, quando o refrão se repete, repetem-se os passos; há mudanças de passos, normalmente, quando o andamento desse refrão da música se acelera ou se lentifica.
O processo criativo coreográfico mais utilizado no grupo desta igreja é justamente o mais comum de todos. O processo criativo sobre trilha “pronta” ocorre com muito mais freqüência em nosso grupo por entendermos que a coreografia evangélica deve ser uma história contada através de gestos. Raramente criamos seqüências de passos para que sejam dançadas de forma individualizada; ocorre sempre em duplas ou trios, pois aproveitamos boa parte dos momentos para fazermos teatros dançados.
O processo criativo coreográfico menos utilizado no grupo desta igreja é processo compartilhado ou improvisação, apesar de ele estar presente em partes de músicas com trilhas prontas (quando se ouve um som que parece ecoar do céu, quando troca-se de lugar de forma aleatória, etc) ou em boa parte das pantomimas que apresentamos (momento em que exploramos a adequação do timbre dos instrumentos musicais com a ênfase dos passos criados), apesar de termos que estar atentos aos toques musicais para desenvolvimento da história que está sendo contada.
Como criadora de coreografia, ainda muito pragmática, sinto muitas dificuldades quando se fala em improvisação de passos. Apesar de dizer que há improvisação, percebe-se que, existe um padrão para se improvisar em determinada apresentação de uma determinada música. Assim que os ensaios vão se repetindo e os passos vão se amadurecendo, percebemos que a improvisação de antes já não pode ser chamada assim, pois virou passo fixo daquela coreografia. Através destas “improvisações”, fazemos melhorias como, por exemplo, alertar aos dançarinos à exploração máxima de sua cinesfera.
Há uma dança famosa entre os grupos de igrejas evangélicas chamada de Dança Espontânea. Ela, normalmente, ocorre durante a apresentação do ministério de Louvor da igreja no momento do culto e, para que a dancemos, é necessário que haja muita improvisação de expressão facial e corporal, assim como a criação de passos, saltos, giros, etc. No entanto, a pessoa que atua neste tipo de dança, sabendo qual música será cantada pelo ministério de louvor da igreja, já sobe ao altar sabendo o que fazer. A realidade é que todos os ministérios de dança que atuam em Dança espontânea em igrejas diferentes se parecem. Isto me faz refletir até onde podemos chamar uma dança de improvisação.
É certo que, como dançarinos que somos, não podemos nos fechar para atuar apenas no que foi planejado, independente do estilo, forma, gênero musical, etc. É necessário se desvencilhar do metodismo em várias situações, até mesmo para “salvar” uma coreografia que, no momento de apresentação, estava destinada ao fracasso. Até porque, tudo é dança, mesmo que ela esteja dizendo que precisaria ter tido mais ensaios.